Sábado, Maio 17, 2008
Vinícius
Descobri que tenho um amigo intelectualóide. Daqueles incompreendidos pelo mundo que escrevem poesias e que nunca são vistos com a barba feita. Quando o conheci, ele era um pirralho feliz menor que eu, que tirava fotos alegres e que usava aquelas blusas que imitam sobreposição (uma camisa com outra de manga comprida por baixo). Agora ele (além de ser maior que eu) usa roupas escuras e raramente demonstra felicidade.
Hoje, quando o vi, ele nem olhou para o lado e eu tive que chamá-lo pelo nome. Ele me olhou, esboçou um sorriso quase imperceptível e veio falar comigo. Quando o abracei, senti cheiro de cigarro. Ele me fez perguntas esperando receber respostas melancólicas. Sinto muito, mas é difícil me ouvir falando de tristeza. Quando perguntei se ele estava bem, respondeu que sofrera desilusões. Então fez uma cara de quem havia por passado por tanta coisa que era impossível falar sobre tudo em um pequeno encontro no curso de inglês. Nada mais contrastante que eu com minha rasteira cor-de-rosa com paetês, sorrindo o tempo todo e ele com sua blusa listrada, morta, e aquela expressão séria.
É um disperdício tão grande viver não sendo otimista, não sorrindo dos problemas que surgem... Sendo mais alegre, as pessoas gostam mais de você, você gosta mais de si. Mas é melhor deixar meu amigo do jeito que ele é. Talvez ele se torne um escritor renomado e escreva sobre uma menina que só sabia sorrir.
enviado por Luh às 9:13 PM
Domingo, Maio 11, 2008
Dois olhos verdes
Loira (cofcof) dos olhos verdes e um pouco egoísta: assim posso caracterizar minha mãe. Quis ficar com os olhos bonitos só para ela e deixou tanto eu quanto minha irmã com olhos castanhos médio. Deixando os traumas de lado, ela conquista todos meus amigos pela beleza (claro), pela simpatia e pelo jeito ‘mãe’ com que fala com as pessoas.
Mãe que não pára em casa durante a semana por causa do trabalho e que devia receber presentes tanto no dia das mães quanto no dia dos pais. A mesma mãe que sai na sexta-feira e reclama quando a acordo para me levar a escola. Falando em escola, ela é a pessoa que mais se importa com nota de todas. E, não sei se vocês sabem, eu sou do tipo que quer mudar o sistema. Ao menos o sistema escolar. Depois disso tudo, ela ainda briga comigo quando eu estudo no fim de semana.
Mãe que não me acorda quando me atraso e me faz perder aulas que eu realmente precisava assistir. E essas são as melhores maneiras de tirar as lições de vida das quais ela tanto fala. Mãe que arranja confusão em todos os lugares possíveis. No hospital quando eu nem ia me consultar mais já que estava passando mal, por exemplo.
Mãe que assiste o Jornal Nacional comigo, que não me deixa falar na hora das novelas, que parece com o Lenine e odeia a comparação, que me cutuca e pede que eu não vá embora, fingindo que o pedido é brincadeira.
p.s.: Eu nem ia escrever sobre mães, mas tem como pensar em outra coisa hoje?! Ainda mais porque minha irmã-louca-por-trabalhos-manuais está ornamentando um café da manhã para mamãe.
p.p.s.: Sei que ninguém percebeu, mas o título é uma adaptação da música Dois Olhos Negros do Lenine.
enviado por Luh às 10:57 AM
Quarta-feira, Maio 07, 2008
Propaganda enganosa
Quando conheci a Márcia* há cinco anos, ela era uma garota gordinha, baixinha e que não sabia combinar roupa. Nós tínhamos onze/doze anos e era o primeiro dia de aula da 6ª série. O que me chamou atenção nessa menina foi o jeito extrovertido, alegre, espontâneo. Ela falava alto, não tinha papas na língua e, ainda por cima, se apaixonava fácil, fácil. Tinha como não gostar dela? Além disso tudo, ela tinha muita força de vontade. Lembro que, na sétima série, suas duas primeiras notas em matemática foram 3. Em compensação, disse que recuperaria os pontos e tirou 10 nos outros dois testes.
O tempo passou e, hoje em dia, ela continua baixa e até um pouco gordinha. Mas aconteceram mudanças. Algumas boas (agora ela se veste bem) e outras ruins. Márcia ainda é extrovertida, mas já não tem aquele brilho que percebi nela quando nos conhecemos. Ela adquiriu uma das piores manias: a de se lamentar. Quando tira nota baixa em uma prova, não tenta se recuperar com a avidez de antigamente. Sim, ela perdeu a admirada força de vontade. Não se move a estudar o bastante para passar nem na federal daqui e muito menos na federal de um interior de São Paulo, para onde poderia se mudar com a mãe no ano que vem.
A minha ficha caiu quando nos atrasamos para a aula de um professor que é nosso amigo e que não reclamaria do nosso atraso. Ela se recusou a abrir a porta, falou que não tinha coragem. Para onde foi a Márcia atrevida que conhecia? Sem acreditar que ela tinha dito aquilo, abri a porta e pedi licença. "Não te conheci assim", falei para ela quando chegamos aos nossos lugares.
*Nome modificado. Vai que alguém por aqui a conhece.
p.s.: Fizeram um mapeamento para a minha sala. Deixaram-me no meu lugar mas tiraram todas as minhas amigas de perto de mim! Inclusive a Márcia. Agora, do meu lado senta uma louca que não entendia porque 10² era 100 e atrás de mim, uma garota que não pára de falar.
enviado por Luh às 2:08 PM
Quinta-feira, Maio 01, 2008
O Cravo e a Rosa
(Parte VIII – 2007)
- Dona Rosângela, a senhora recebeu flores – falou a empregada, entregando o buquê à patroa.
Rosinha sorriu para aquelas rosas cor-de-rosa e foi logo abordada pelas filhas:
- Mãe, quem te mandou essas flores?
- Vocês se lembram que eu falei que eu reencontrei aquele meu amigo, o Fábio? ...
Poucos dias antes, Rosinha começou um pequeno curso sobre legislação no trânsito, pois havia completado quarenta e um anos e precisava renovar sua carteira de motorista. O que ela não imaginava é que reencontraria naquelas aulas sua amiga, e ex-cunhada, da Rua Raimundo Correia. Melissa contou para a amiga que Fábio, seu irmão, estava na cidade e os antigos namorados se reencontraram no dia em que ele foi buscar a irmã no curso.
Na mesma noite, saíram para jantar. Foram a um bar na avenida litorânea. Fábio estava se separando de Lucimar e precisava de um ombro amigo. Rosinha estava numa fase de aproveitar a vida, saía para dançar toda sexta-feira e ainda se recuperava do fim de um relacionamento longo que não acabou de maneira amigável. O reencontro não poderia ter acontecido em melhor hora. E, para melhorar ainda mais a ocasião, uma das primeiras coisas que ele fez ao chegarem ao bar foi recitar:
- De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento (...).
Sim, era o Soneto da Fidelidade de Vinícius de Moraes. Aquele soneto que estava no cartão que Rosinha deu a Fábio no primeiro dia dos namorados que passaram juntos.
enviado por Luh às 6:23 PM
Terça-feira, Abril 29, 2008
Paixonite 'antiga'
Atrasada como de costume, Joana chegava atrasada no reencontro da sua turma de terceiro ano da escola. Ela não via a maioria daquelas pessoas há dez anos quando se formaram, com exceção das amigas que fizeram parte do seu grupinho no colégio. Elas sempre se encontravam quando Joana passava férias na cidade. Ansiosa, não via a hora de entrar logo na casa de Beatriz, que organizara a festa, e reencontrar todas aquelas pessoas com as quais convivia 50 horas por semana. Aquele nerd preocupado com nota, o magrelinho que ficava escutando sua conversa e, principalmente...
- Fred!
Ele instantaneamente tirou o celular da orelha e foi falar com a mulher que se aproximava. Mas não antes dela perceber que ele não usava aliança alguma.
- Joana, tu estás diferente demais, a não ser pelo fato de me chamar de Fred.
- Eu já disse que tu não tens cara de Frederico! E tu estás totalmente diferente do que eu imaginava. Pensava que estarias careca!
- Ainda bem que resolvi contrariar a minha natureza.
Risos. E silêncio. Aquele silêncio constragedor durante o qual duas pessoas se olham sem saber o que falar.
- Então, Fred, eu interrompi tua ligação e eu preciso falar com o resto do pessoal. Depois a gente conversa mais.
Ambos passaram a noite pensando um no outro, como já era de se esperar. Quando Joana mudou de turno e passou a estudar com Fred, sentiram um interesse mútuo que foi dissipado quando ela começou a namorar com um colega de turma deles. Fred lembrava daquela adolescente que ria e gesticulava o tempo todo. Joana se recordava daquele garoto alto e um tanto desengonçado que era considerado esnobe por muitos. "Ele nunca foi esnobe comigo", ela costumava dizer. No fundo, ela sabia que aquele rapaz era um cara charmoso em potencial.
Depois do jantar, quando Joana caminhava na direção do terraço, Frederico a puxou pelo braço e ela percebeu que ele ainda não aprendera a controlar sua força. Ainda a segurando, falou bem baixo:
- Não consegui parar de te olhar a noite toda.
Silêncio. Joana nunca fora boa em dar respostas rápidas.
- Joana?
- Hum?
- Você quer sair pra lanchar comigo?
- Tá, pode ser.
Então eles saíram da festa sem que os vissem. Mas eles tinham acabado de jant...
- Jô, me empresta aquela tua caneta roxa?
- Aaan?
- A caneta. Roxa.
- Ah, pega.
"Caramba, Mari, eu tava viajando aqui. Distraidinha.", pensou Joana. Olhou aqueles ombros largos na sua frente. E o professor de química falando sobre soluções."Não vejo a hora do reencontro da turma em 2018." E riu.
enviado por Luh às 8:19 PM
Sábado, Abril 26, 2008
Devaneio no ônibus
Muito cansado, Roberto voltava para casa e, na fila do ônibus, prestou atenção na conversa de duas amigas. Falavam de provas. "
Devem estar na escola ainda", pensou. Elas tiraram sua dúvida quando começaram a falar sobre a unificação da Alemanha e de outro país da Europa. A mais alta falava para a baixinha que ela já devia saber o que era um tal de "
zolverein" porque ela tinha certeza de que cairia na prova do dia seguinte. Parece que era um acordo de livre comércio, ele não entendeu muito bem. Deduziu que a mais alta era a mais estudiosa já que explicava o assunto para a outra. "
Eu não sei o que era esse acordo, Lu", a baixinha falou para a mais estudiosa. Qual seria o nome dela? Luciana? Ludmila? Luara? Talvez Lúcia... Lembrou, então, do ônibus e quando virou de costas, percebeu que o mesmo estava entrando na integração. "
Finalmente". As amigas se despediram. A baixinha foi para a outra plataforma esperar seu ônibus e a mais alta continuou na fila.
Enquanto entrava no ônibus, percebeu que a menina da fila era meio indecisa. Parecia escolher o lugar para sentar e ficou desnorteada quando encontrou outra amiga lá. "
Ei, Daniele". E a Daniele falou "
Oi, Luisa." Então o nome dela era Luisa. "
Como não pensei antes? Tem tudo a ver com ela." Roberto sentou no banco na frente da menina. Pelo vidro da janela, percebeu que ela lia alguma coisa. "Deve estar estudando para as provas."
Ele esqueceu da menina atrás dele até que ela falou com a amiga.
- Tu tava na escola hoje?
- Tava!
- Não te vi... Tu foi de qual profissão?
- Nenhuma.
- Ah, sem graça.
"
Profissão? Que menina doida." O rapaz passou boa parte do trajeto tentando não cochilar, estava com sono mesmo. Perto do ponto final, a amiga falou com a Luisa de novo:
- Luisa, pára de estudar!
- Ô, menina, eu tô estudando agora porque mais tarde eu vou pro show.
- Show, que show?
- O de Nando Reis.
- Ah, tá... E tu já estudou tudo?
- Falta ler umas coisas de história: imperialismo e revisar Brasil. E tu?
- Eita, eu ainda tenho que estudar física e história!
- Tudo!?
- É.
- Meu deus.
Quando desceu no ponto final, seguiu para a direita. Luisa seguiu reto e desceu uma ladeira. "
Será que ela mora nos prédios?"
Ao invés de ler o assunto de química na volta para casa ontem, fiquei imaginando essa situação só porque o cara que tava atrás de mim na fila sentou no banco da minha frente. Ah, e por causa da minha mania de perseguição também. Mas deve ser bem fácil saber da minha vida, socorro.
p.s.: Eu não moro nos prédios.
p.p.s.: A pergunta sobre a profissão não foi do nada. Tinha sido o trote do dia. Fotos no
flickr.
enviado por Luh às 9:04 PM
Quarta-feira, Abril 23, 2008
Oito coisas que eu quero fazer antes de partir
As regras:
1° - A pessoa selecionada deve fazer uma lista com 8 coisas que gostaria de fazer antes de morrer.
2° - É necessário que se faça uma postagem relacionando estas 8 coisas, não importando o que seja, é necessário que a pessoa explique as regras do jogo.
3° - Ao finalizar devemos convidar 8 parceiros de blogs amigos.
4° - Deixar um comentário no blog de quem nos convidou e nos nossos convidados, para que saibam da intimação
As coisas:
1. Passar no vestibular. (super original, que tal)
2. Ter um filho. (ou dois ou três ou quatro... haha)
3. Escrever um livro. (para, junto com o número dois, completar as metas de vida clássicas. Afinal, é claro que já plantei uma árvore.)
4. Aprender a falar inglês, espanhol e francês fluentemente.
5. Viajar para o exterior. (para vários países, de preferência)
6. Conhecer o Evaristo Costa. (essa não podia faltar!)
7. Uma franja igual a da Alinne Moraes.
8. Cirurgia de miopia. (usar óculos enjoa e eu não consigo colocar minha lente!)
Passo para:
Gabi,
Anna,
Amanda,
Jana,
Gabi :),
Lorenna,
Mih e
May.
Beeeeijo.
enviado por Luh às 6:01 PM
Sábado, Abril 19, 2008
O Cravo e a Rosa
(Parte VII)
Lucimar era uma jovem daquelas que animam o grupo em qualquer momento. Seu jeito dedicado, alegre e espontâneo fazia com que sua aparência não tão agradável quase passasse despercebida. Assim como a maioria das maranhenses, tem os olhos e o cabelo escuros. Mas o rosto assimétrico com o nariz e as orelhas maiores do que deveriam acabavam com sua possível beleza.
Apesar do gosto pela cultura nordestina, principalmente por shows de forró e axé, Lucimar mostrou-se disposta a abdicar de tudo isso quando começou a namorar Fábio devido à repulsão que ele sentia por esses ritmos. A jovem adorava quando o namorado falava sobre música clássica ou poesia e era isso o que fazia com que o namoro deles desse tão certo. Quando começava a falar, era difícil quem o fazia parar suas longas aulas sobre os assuntos de que gostava.
Assim como Rosinha, Fábio se casou ainda na faculdade. E, antes de se formar em direito, nasceu seu primeiro filho, Filipe, no mesmo ano que a antiga namoradinha teve Janaína. Cinco anos depois, quando Lucimar deu à luz uma menina chamada Helena, o casal já não morava em São Luís, mas em Imperatriz, para onde Fábio havia sido transferido após passar em um concurso público.
Os cônjugues viveram tranqüilamente até que Fábio decidiu realizar um de seus sonhos: fazer doutorado na Espanha. Ele viajou primeiro e a família iria ao seu encontro em seguida.
- Eu não vou mais – foi o que Lucimar disse a seu marido na véspera da suposta viagem que faria.
Tentando salvar seu casamento, Fábio voltou ao Brasil antes do previsto. Mas essa volta antecipada só trouxe à tona péssimas informações: uma traição da esposa, por exemplo.
enviado por Luh às 9:28 PM